Boletim “Emprego em Pauta” revela que jornadas longas reduzem qualificação, aprofundam desigualdades e dificultam conciliação entre trabalho e educação. Maioria dos celetistas trabalha acima de 40 horas e recebe menosLongas jornadas afastam jovens da escola. É o que revela
estudo do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).O debate sobre a redução da jornada de trabalho ganhou novo elemento social e econômico com a divulgação do boletim Emprego em Pauta, de maio, do Dieese. O estudo conclui que a diminuição da jornada semanal pode criar condições para que até 425 mil jovens entre 18 e 29 anos consigam conciliar emprego formal e estudos.
Os dados reforçam argumento que ganhou força durante o debate sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada para 40 horas semanais: trabalhar menos não significa produzir menos. Em muitos casos, significa criar condições mínimas para qualificação profissional, melhoria de renda e mobilidade social.
Segundo o levantamento, quanto maior a jornada, menor a possibilidade de permanência dos jovens na escola ou em processos de formação profissional.
Entre trabalhadores formais de até 29 anos com jornadas inferiores a 36 horas semanais, metade (50%) frequentava a escola. Entre aqueles submetidos exatamente a 40 horas semanais, o percentual caía para 22,3%.
O cenário torna-se ainda mais restritivo nas jornadas entre 41 e 44 horas: apenas 17,1% conseguiam estudar. Entre trabalhadores submetidos a jornadas de 45 a 48 horas, o índice despenca para 14,8%. Nas jornadas superiores a 48 horas, apenas 9,7% conciliavam trabalho e estudo.
Peso da exaustão sobre juventude trabalhadoraO impacto é ainda mais severo entre jovens de 18 a 24 anos. Segundo o Dieese, 28% daqueles que trabalhavam exatamente 40 horas semanais conseguiam estudar. Entre os submetidos a jornadas de 41 a 44 horas, o percentual caía para apenas 20%.
O dado mais preocupante é estrutural: nesse grupo de jovens submetidos às jornadas mais longas, 19% sequer haviam concluído o ensino médio.
Na prática, o estudo demonstra que o excesso de trabalho não apenas compromete o descanso e a saúde mental, mas também bloqueia oportunidades futuras de ascensão social e qualificação profissional.
Maioria trabalha mais de 40h e ganha menosO boletim também desmonta outro argumento recorrente do discurso empresarial: o de que jornadas mais longas necessariamente significariam melhores salários.
Os dados mostram exatamente o contrário.
Em 2024, trabalhadores celetistas com jornada de exatamente 40 horas semanais recebiam, em média, R$ 5.555 por mês. Aqueles submetidos a jornadas entre 41 e 44 horas recebiam apenas R$ 2.560 mensais. Valor 117% inferior.
Mesmo trabalhando mais tempo, a maioria dos trabalhadores submetidos às jornadas mais extensas recebe salários significativamente menores.
Segundo a Rais (Relação Anual de Informações Sociais) 2024, 75% dos vínculos celetistas do País estavam acima de 40 horas semanais. Ao todo, 36,6 milhões de vínculos formais registravam jornadas superiores a esse limite.
A jornada média dos trabalhadores celetistas brasileiros chegou a 41 horas e 32 minutos semanais.
Agropecuária, comércio e construção
concentram jornadas mais longas
O estudo mostra que a sobrecarga é particularmente intensa em setores historicamente marcados por baixos salários e alta intensidade laboral.
Na agropecuária, 94% dos vínculos celetistas registravam jornadas superiores a 40 horas semanais. Na construção civil, o índice chegava a 93%. No comércio, alcançava 91%.
Também apresentavam percentuais elevados os setores de alojamento e alimentação (87%), indústria (86%) e serviços domésticos (83%).
Segundo o Dieese, a própria estrutura da jornada de 44 horas semanais ajuda a perpetuar a escala 6x1. Como a CLT estabelece limite diário de 8 horas, jornadas superiores a 40 horas frequentemente resultam em 6 dias de trabalho por semana.
Estimativas do Ministério do Trabalho indicam que cerca de 15 milhões de trabalhadores formais submetidos a jornadas de 44 horas atuam na escala 6x1.
Formação e produtividade caminham juntasO estudo também questiona a ideia de que a produtividade depende exclusivamente da ampliação do tempo de trabalho.
Entre trabalhadores com ensino superior completo, quase metade (47%) possuía jornadas de exatamente 40 horas semanais. Entre aqueles com apenas ensino médio completo, predominavam jornadas entre 41 e 44 horas.
Para o Dieese, jornadas extensas reduzem o tempo disponível para estudo, formação continuada e qualificação profissional; elementos essenciais para ganhos sustentáveis de produtividade econômica.
O boletim sustenta que a redução da jornada deve ser compreendida não apenas como política de proteção social, mas também como estratégia de desenvolvimento econômico.
Debate sobre tempo de vida ganha centralidadeA divulgação do estudo ocorre em meio à intensificação do debate nacional sobre redução da jornada e fim da escala 6x1, impulsionado pela aprovação, na Câmara dos Deputados, da proposta que reduz a jornada semanal para 40 horas sem redução salarial.
O Dieese lembra que a luta pela redução do tempo de trabalho é histórica e que a diminuição da jornada de 48 para 44 horas promovida pela Constituição de 1988 não provocou os impactos econômicos negativos previstos à época por setores empresariais.
Agora, o novo levantamento reforça que a discussão sobre jornada ultrapassa a questão trabalhista tradicional. Trata-se também de saúde pública, qualificação profissional, produtividade e futuro da juventude brasileira.
No centro do debate, emerge questão cada vez mais incontornável: sociedades que condenam milhões de jovens à exaustão permanente tendem também a limitar a capacidade de formação, inovação e desenvolvimento dessa juventude. (Fonte: Diap)
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