Inflação chega a 10,74% em 12 meses, a mais alta desde 2003
Resultado acumulado no período é o mais elevado desde 2003, apesar do recuo verificado em novembro. Combustíveis e energia elétrica continuam sendo os principais motivos de alta da carestia (Por Rosana Hessel)A inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), perdeu um pouco da força entre outubro e novembro: o indicador recuou de 1,25% para 0,95%, conforme dados do Instituto Brasileiro Geografia e Estatística (IBGE), ficando abaixo das estimativas do mercado, que esperava alta em torno de 1% e 1,10%. Apesar disso, foi a maior alta para o mês desde 2015.
Além disso, a taxa acumulada em 12 meses subiu, alcançando 10,74%, ante 10,67% registrados em outubro, na maior variação para o período desde 2003. O percentual acumulado é o dobro da meta de inflação deste ano, de 5,25%. Conforme os dados do IBGE, sete dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados registraram alta de preços, confirmando que a elevação do custo de vida está disseminado na economia.
O grupo de Transportes subiu 3,35% e foi o segmento que mais pesou no indicador de novembro. O principal vilão foi a gasolina, cujos preços saltaram 7,38%. No acumulado em 12 meses, o combustível registra alta de 50,78%. Enquanto isso, o etanol disparou 69,40%, no mesmo intervalo, e o óleo diesel, 49,56%.
Analistas avaliam que a carestia continuará forte e resistente. Eles lembram que os preços elevados dos combustíveis e da energia encarecem os fretes e os custos de produção, que devem ser repassados ao consumidor de alguma forma ao longo do próximo ano. Apesar da desaceleração vista em novembro, eles reforçaram a tese de que o Banco Central vai manter o ritmo de alta dos juros, aumentando a taxa básica da economia em mais 1,50 ponto percentual, em fevereiro, como foi sinalizado no comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) da última quarta-feira, quando a taxa básica passou de 7,75% para 9,25% ao ano.
Há um consenso em formação de que a taxa básica deve chegar a, pelo menos, 11,75%, no início de 2022, de acordo com Fábio Romão, economista sênior da LCA Consultores. Segundo ele, a inflação continuará em dois dígitos, pelo menos, até abril, por conta da bandeira tarifária da energia elétrica, que está no patamar mais elevado e só deverá ser revista a partir de maio.
Para o analista, um dos motivos da desaceleração do IPCA, além dos descontos da Black Friday, é o começo do impacto do ciclo de alta da Selic, iniciado em março. "Há uma defasagem de seis a nove meses dos reflexos do aperto monetário na atividade. Mas uma inflação de 10,74% é elevada. Ela corrói o poder de compra das famílias e afeta o consumo", destacou.
Indexação
Romão lembrou que, como a economia está muito indexada, a inércia não deixará o IPCA ficar abaixo da meta em 2022, que é de 5%. Pelas estimativas da LCA, mesmo se a Selic chegar a 11,75% ao ano, em março, e se mantiver nesse patamar até dezembro, a inflação deverá encerrar 2022 com alta de 5,5%.
O economista André Braz, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), também prevê que o IPCA encerrará 2022 acima da meta, com alta de 5,2%. "A inflação continuará bastante disseminada na economia. O índice de difusão, apesar da queda em novembro, ainda é elevado, de 63%, e tem uma tendência de alta pela média móvel em três meses. E os núcleos de inflação também continuam acelerando, porque os reajustes estão ocorrendo mais rapidamente em diversos setores, porque a economia é muito indexada", explicou Braz. Ele também lembrou que, no início de 2022, vários reajustes estão sendo esperados, como as mensalidades escolares e as tarifas de ônibus urbanos. "Vai ser difícil para a inflação desacelerar para dentro da meta. O único alento é que o volume de chuvas parece animador, e o preço da energia poderá cair a partir de maio, quando deve haver mudança na bandeira tarifária", afirmou.
De acordo com Braz, outro alento para o custo de vida é que a nova variante da covid-19, a ômicron, deve ajudar a desacelerat o IPCA de dezembro para 0,65%. "O petróleo já está caindo no mercado externo com a redução da circulação das pessoas na Europa, e isso poderá ajudar a evitar um novo reajuste da gasolina neste mês", afirmou.
Na contramão, os grupos de Alimentação e bebidas e de Saúde e cuidados pessoais registraram deflação de 0,04% e 0,57%, respectivamente. Um dos itens com destaque entre as quedas foi a carne, com deflação de 1,38%, em grande parte, devido ao embargo chinês que aumentou a oferta do produto no mercado interno, lembrou Romão. As passagens aéreas, com queda de 6,12%, após alta de 33,86% em outubro, não devem subir muito em dezembro, pelas estimativas do economista, porque a demanda ainda não está tão aquecida. (Fonte: Correio Braziliense)
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